Meu Primeiro Amor.

Depois de 20 anos, assisti novamente ao filme Meu Primeiro Amor. E o que era um longa fofinho com lembranças da infância, se tornou numa surpreendente história cheia de entrelinhas (mas sem perder a gostinho de saudade).

My Girl Macaulay Culkin Anna Chlumsky

A primeira coisa que percebi foi que o filme não se trata de uma menina que é apaixonada pelo amigo. Tem a ver, primeiramente, com as sérias consequências que ausência da mãe traz no crescimento de uma criança; o quanto a pequena Vada busca situações diversas e adversas para chamar a atenção e se sentir notada. O quanto ela confunde atenção com amor (isso fica bem claro nas cenas com o professor, onde ela se diz apaixonada e que o ama, mas na verdade é apenas por ele ser um dos poucos adultos a lhe dar ouvidos).

O pai, Harry, deveria ter um papel essencial na vida da filha, já que a mãe morreu dois dias após o nascimento dela, mas ele só quis saber dos negócios da funerária. Em contrapartida, mesmo tendo a “certeza” que o pai não lhe dava a mínima, Vada se sentiu ameaçada e morreu de ciúmes quando Shelly demostrou interesse por ele.

Por fim, o quão complicado é para uma criança de 11 anos definir o amor. Se para nós, adultos, é tão complexo, imagine para uma garota que não chegou a conhecer a mãe e teve um pai totalmente ausente? Eu acho que a presença do Thomas J. no filme foi o molho perfeito pra falar de uma menina cheia de problemas. É como o Titanic, que encontrou em Jack e Rose Dawson o romance ideal para falar do maior naufrágio de todos os tempos.

Assistam novamente e busquem novas interpretações.

Auto-falante humano.

Ontem, enquanto passeava pelo Centro, ouvi de longe uma voz que pregava, em altíssimo volume, a palavra do Senhor. Mais que isso! Com uma Bíblia colada na mão esquerda, ele pregava que quem não aceitasse algumas coisas que estavam sendo impostas naquela oratória, iria pro inferno.

Parei minha bicicleta em frente ao auto-falante humano e fiquei prestando atenção no quão convicto ele estava daquilo tudo que saía de sua boca. Por um lado, senti pena. Por outro, achei o ato arriscadamente corajoso. Adicionando mais um lado aí, achei invasivo demais.

Ao chegar em casa, abri meu Facebook e fui imediatamente bombardeado por várias publicações agressivas no meu Feed de Notícias. E, acredite se quiser, me xingavam de várias coisas por eu simplesmente não compartilhar da mesma visão política.

Neste momento, senti saudade do auto-falante humano.

Até já, Ed.

Foto: Miguel Solano

Kina Grannis – Mr. Sun

Meu gato acabou de ser castrado. Confesso que não apoio muito essa prática, mas a sociedade exige que tomemos algumas providências contra a nossa vontade. E entre deixá-lo “livre” e protegê-lo de perigos, eu escolhi resguardá-lo com amor infinito e liberdade segura.

Passei meses lendo a respeito da castração de felinos e concordo com todos os argumentos expostos até então. Apenas não consigo me sentir 100% à vontade tirando a capacidade de reprodução de um animal, seja ele um gato, um cachorro, um coelho. Penso sempre em como me sentiria se nunca mais pudesse fazer sexo e perdesse meu instinto. Pode parecer frescura, mas a natureza é perfeita por si só e não curto muito modificar as criações de Deus (valores pessoais, que dizem respeito somente a mim e não quero convencer ninguém de nada).

Adiei enquanto pude, mas tinha que fazer isso logo antes que ele criasse vontade de sair por aí caçando ou procriando (eu acho isso lindo, mas vejo casos e mais casos de donas que perdem seus animais por malvadezas humanas, que acabei me tornando a favor da castração). O veterinário foi o mais responsável e apaixonado por animais que conheço, e tudo estava sobre controle. Porém, enquanto os olhinhos dele fechavam, por causa da anestesia, algumas lágrimas caíram dos meus. Me questionei do motivo daquilo, já que estava convencido da operação e com um veterinário de confiança, mas só vim entender de fato após chegar em casa.

Ed estava molinho, desacordado. Tive que retirá-lo da caixinha e levá-lo até a cama. Durante esse processo, me senti um pai de verdade. Não que já não me sentisse, mas foi diferente. Foi a essência da responsabilidade sobre um animalzinho que nada poderia fazer a não ser contar com sua ajuda. E eu não consegui sair de perto um minuto sequer. E sei que isso fez a diferença nas vezes em que ele acordou, reconheceu o ambiente e voltou a dormir tranquilo porque me via por perto.

E aquelas lágrimas que citei há pouco, foram apenas de amor. Por ver os olhinhos dele fixados aos meus até que o efeito da anestesia pegasse por completo; por achar que devia pedir desculpas por permitir uma cirurgia tão chata, mas que era pensando no melhor pra ele, sempre; por nunca imaginar depositar um amor desse tamanho num gato e ser inexplicavelmente surpreendido; por ter ainda mais certeza de que filho e animal têm o mesmo espaço no meu coração.

Eu te amo, Ed. E hoje vi o quanto eu te amo além da sua fofura, além da sua beleza, além da minha raiva ao ver que você destruiu alguma coisa de valor que esqueci de esconder. E pode ficar tranquilo que consigo outros CD’s do John Lennon por aí. Só se preocupe em acordar, roçar sua testa no meu nariz e me encher de mordidas, ok?

Até já.

Felinofobia.

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Preconceito é uma coisa chata.
Principalmente se você nasceu em corpo de gato.
Já nascer sabendo que será taxado de falso é uma porcaria.
E todo mundo é assim: acha que gato é traidor, independente, fujão, frio… Meu pai mesmo era um idiota (que ele não leia isso).
Espalhava por aí que teve um gato quando criança, mas fugiu e nunca mais voltou e ele ficou triste e bla bla bla
Quanto sentimentalismo desnecessário…

Eu sei dessa história porque ele sempre me coloca no braço e conta às pessoas que eu mudei a ideia dele sobre gatos.
Me bastou chegar cheio de dengo e jogar meu charme que a coisa mudou.
E eu gostei dele de cara, na moral.
Quando ele entrou na porta pra ver os gatinhos que estavam para adoção, eu logo pensei “Esse vai ser meu pai” e me joguei na perna dele.
Lembro até hoje da frase que ele disse: não consigo mais deixar esse gato aqui.
E no outro dia veio me buscar.
Acredita que até me defende por aí?
Fica dizendo que tenho alma de cachorro (vê, que preconceito), só porque trago a bolinha até ele sempre que a joga longe.
Grande coisa isso! Até um passarinho faz, se quiser.
Mas deixa os cachorros acharem que são exclusividade deles.

E tenho que confessar: tem muito gato chato mesmo.
Assim como tem cachorro legal e insuportável também.
Eu conheço dois que não me deixam dormir.
É que sempre passa um gato por cima da casa e eles ficam latindo.
Inveja, na verdade, por não conseguirem ser tão elásticos como nós, felinos.
Aí todo mundo fala que cachorro é fiel, que não abandona o dono, etc.
E você acha mesmo que se cachorro tivesse nossa incrível habilidade de pular muros, eles não fariam o mesmo?
CACHORRO É FIEL PORQUE É GORDO!
Digo logo, sem papas na língua.
Gatos são atléticos.

As pessoas precisam se informar mais sobre o que não conhecem.
Só assim elas poderão ter uma opinião coerente a respeito.
Mais que isso! Não se traumatizar na primeira experiência e muito menos analisar o produto pela capa (o que não foi difícil pra mim, pois sou lindo).

Tá, confesso, essa última frase foi diretamente pro meu pai.

Miau.

Ah! E amor não é uma tigela de ração, que a gente encontra em qualquer lugar, de todos os tipos.
Não se preocupe, papai, eu não vou fugir.

Sapatos.

Eu odeio sapatos.
Sapatos sempre significam uma despedida.
E é ruim ver pessoas que você ama indo embora.

Meu pai calça sapatos quando precisa sair.
Por mais que ele volte em algumas horas…
Por mais que eu saiba que infelizmente é necessário sair…
Eu só consigo odiar os sapatos.

Que sempre fazem questão de grudar nas pessoas e arrastá-las pra fora de casa.
Porque são espertos e sabem que se não forem calçados, ninguém sairá com eles.
E é isso que me tira do sério!
A tal da trapaça.
Se quer tirar as pessoas de perto de mim, me pergunte se posso liberá-las!
Mas não chegue de repente pra acabar com meu momento de carinho.

Mas deixa pra lá.
Quem banca o espertinho sempre se dá mal no final.
Até reparei que os sapatos do meu pai rasgaram nas laterais.
E em dias chuvosos eles não conseguem tirá-lo de casa.
Eu finjo que não percebi nada, mas o par de gêmeos fica irritado porque foi escanteado.

Só existe um lado bom em não gostar de sapatos:
Eles sempre perdem e voltam para a caixa.
E eu, claro, volto a receber carinho.

Tenho 3 meses de vida e me chamo Edgard.
Fui adotado depois de ser abandonado na rua.
E adivinha onde me acharam?
Dentro de uma caixa de sapatos.
É, a antipatia vem de berço.

Miau.

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